EU NÃO ERA MAIS UM DOS MORTOS-VIVOS NAQUELE AVIÃO

Chegou então a hora de voltar para casa, após servir ao Corpo da Paz. Há tanto tempo eu não morava mais nos Estados Unidos, quase dez anos entre idas e vindas, que eu já nem sabia mais direito o significado da palavra americana. Na Bolívia, tudo era tão fácil de compreender, tão simples: vida, morte, alimentos, crianças. Mas no universo dos diplomatas, ao qual eu pertencia, tinha de carregar a bandeira de meu país, precisava articular, promover e defender os pontos de vista americanos. Na verdade, eu havia experimentado a dimensão da realidade nua e crua para alimentar a ilusão da diferença entre um corpo americano e uni boliviano, pois o objetivo final de cada um deles era o mesmo. Sinceramente, sentia-me um tanto constrangida pela minha óbvia incapacidade de explicar, ou mesmo justificar, a política e as tendências dos Estados Unidos, mas sabia que precisava retornar à Terra da Prosperidade.Caminhei, ansiosa, em direção ao avião que me levaria até Miami. Ao entrar, olhei para aquele mar de rostos enfileirados e percebi que quase todos os passageiros eram americanos. Em vez de me sentir aliviada e feliz, de repente comecei a me sentir pesada e sem vida. Dei urna olhada para perceber os campos de energia e no mesmo instante meu corpo deu um sinal de alarme.
Em contraste com o lindo céu azul lá fora, que se mostrava pelas janelas do avião, seu interior estava carregado com uma massa de energia cinza e densa. Eu conhecia aquela energia; já a vira antes. Comecei, então, a olhar intensamente para os meus companheiros de viagem e só consegui enxergar doenças, depressão, drogas e. tristeza espalhando-se pelos campos áuricos de quase todos lá dentro. Será que era isso o que estávamos manifestando, nós os habitantes daquela potência chamada Estados Unidos da América? Estarrecida, constatei: aqueles eram os mortos-vivos!
Era como se cada uma daquelas pessoas estivesse envolta num casulo. Não conversavam entre si. Pareciam anestesiadas. Ao percorrer o corredor, ninguém ergueu os olhos para mim. Estávamos viajando juntos, e ninguém olhava para ninguém. Embora fôssemos realmente desconhecidos uns para os outros, existia um elo, uma grande membrana de metal que nos envolvia e nos conduzia a um mesmo lugar. Qualquer que fosse o destino daquelas pessoas, o meu era igual ao deles. Senti a aderência daquela vida descendo sobre mim como se fosse neblina, Não dava para escapar. Freqüentemente, eu havia ignorado a realidade dos campos áuricos se misturando, mas naquele momento, não havia como negar. Nem era preciso olhar, bastava fechar os olhos para sentir a pressão. Não havia jeito. Aquelas pessoas não estavam vivendo, estavam simplesmente existindo. Senti como se eu também tivesse sido condenada àquele plano obscuro de existência. Senti-me extremamente solitária.
Na tentativa de encontrar alguém que pudesse me consolar, alguém que pudesse me convencer de que aquilo tudo era um sonho, comecei a caminhar pelo corredor novamente. Foi quando a vi. Poderia dizer que ela tinha cabelos loiros, olhos azuis e devia ter uns seis anos de idade, mas, sinceramente, não percebi nada disso naquele momento. A única coisa que notei foi que ela brilhava. Estava viva, inteiramente viva! Olhou para mim, para os meus olhos, sem o menor constrangimento, e me cativou.